Bem, faz algum tempo que não escrevo nada aqui e por isso decidi exprimir um pensamento que me tem "assombrado" nos últimos, vá lá, meses.
Há uns tempos atrás li no jornal Destak uma história da autoria de Luísa Castel-Branco que me deixou a pensar. Dizia o seguinte:
"Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Isto sim, é a realidade.
José Gomes de Macedo, de 62 anos, que vivia há oito anos em Beauregard, terá morrido há dois anos mas apenas esta semana foi encontrado.
"Este foi o momento mais chocante de toda a minha vida diplomática de mais de trinta anos", admitiu o embaixador de Portugal em Paris.
A notícia surgiu no Destak bem como em muitos outros jornais.
Nos arredores de Paris, numa localidade habitada quase exclusivamente por emigrantes, num andar de um prédio, este homem morreu há 730 dias.
Os vizinhos dizem agora que era um homem calado e que ali ainda existe o conceito de vizinhança. Seguramente que foi essa solidariedade que levou ao telefonema anónimo a alertar as autoridades para o cheiro nauseabundo que vinha do apartamento. Dois anos depois.
Leio, dias depois, que as filhas pediram a trasladação do corpo para Vila Verde (Braga), onde vive a ex-mulher com quem afinal ainda era casado. O cadáver encontrava-se em estado mumificado e foi através do número de série da prótese auditiva que as autoridades o identificaram. Poderia ser a trama de um filme de suspense, mas não. É apenas a realidade.
E nesta realidade, a solidão é bem maior do que a vida ou a morte.E bem mais terrível.
Este emigrante português que vivia há muitos anos em França, não fez um vídeo caseiro com uma equipa técnica de som e imagem.E, por isso, morreu só, enrolado no seu silêncio, no vazio de uma casa que não conhecia visitas ou palavras amigas.
730 dias sem que alguém desse pela sua falta. Será que alguém o amou em tempos? Será que o seu mau feitio (também referido em algumas notícias) o arredou de todo o convívio humano?Mas há quanto tempo tinha sido a luz cortada naquele andar?Há quanto tempo não se abria aquela porta? Haverá maior miséria do que esta?
in Destak 20 10 2009"
É, de facto, estranho como é que alguém pode desaparecer assim da vida das pessoas e ninguém dar conta disso. Trata-se de um caso muito triste e que reflecte até que ponto as pessoas se interessam em testemunhar a vida de outras. Podia ser um simples homem sem família, nem amigos, ou já bastante idoso e impossibilitado de sair de casa, mas não. O senhor tinha 62 anos e família. Como estava em França, o mais provável era até ser um emigrante que mandava dinheiro à família e por isso é de estranhar que ninguém, colegas de trabalho, família, nem mesmo os próprios vizinhos não tivessem dado pela falta dele.
Desde que vim para a casa onde moro actualmente, já faz quase uns 15 anos, que me lembro da minha vizinha do lado direito. Era uma pessoa extremamente faladora. Quando nos encontrávamos à porta de casa ou quando a minha mãe regava as flores na varanda e ela aparecia ficavam tanto tempo a fazer aquela conversa casual. Os olhares que a minha mãe mandava!! Chegámos ao ponto de fingir que o telefone tocava só para ela se despedir e acabar com a conversa. Que tristeza!
Com os anos a passar também notei um certo afastamento da vizinha em relação ao mundo exterior. Apercebi-me que o marido se separou dela, porque simplesmente deixou de aparecer aqui em casa e que ela se tornou esquiva e muito pouco faladora. Quando nos via a entrar em casa, simplesmente soltava um tímido "Boa noite" e esperava que entrássemos em casa para depois ser ela a entrar e abrindo a porta o mínimo possível, talvez temendo que o nosso olhar conspurcasse a sua casa imaculada.
Alguém me disse, já não me lembro quem, que ela disse que já não ia ao dentista porque tinha medo de apanhar SIDA. Meu Deus! Imagino como é que devia estar aquela boca…
Às vezes, ficava a estudar até muito tarde e ouvia o elevador a chegar, e lá ia ela às 2h ou 3h da manhã a levar o lixo à rua!!?? Isto não é normal!!
Mas o que é que a minha vizinha tem a haver com a história supra-referida? Desde Maio deste ano, deixei de ver a minha vizinha, pelo menos desde que me lembro. Aliás, parece que ninguém põe os pés naquela casa desde essa altura. Até tenho vergonha de dizer isto: acho que nem sequer o correio é recolhido! Não se ouve barulhos vindos da casa, nem luzes! Por isso, sem querer parecer mórbida, acho que existem três hipóteses:
1) Ou ela foi morar com um namorado rico novo (sem comentários)
2) Ou foi morar com algum familiar (altamente improvável)
3) Ou então … bem, enfim...
Se por acaso a terceira hipótese fosse válida, o que poderia alguém fazer? O que aconteceria se por acaso ligasse para a polícia pensando o pior e que se viesse a descobrir que ela tirara apenas umas férias sabáticas para o Havai e estava de volta para o início do ano lectivo? Grandes problemas. A única solução será esperar que surja um cheiro nauseabundo ao ponto de ser impossível não deixar de notar. Por isso compreendo que não fosse possível da parte dos vizinhos terem feito nada. É triste, mas como diz a Luísa, "é a realidade", e ela está mais próxima do que imaginamos!!
Espero que estas preocupações não sejam mais que meras especulações, mas até lá temos a possibilidade de fazer mais barulho (e não digo que sou eu) e ao menos serão poucos dedos a tocar no número do nosso andar, o que nesta altura da crise da gripe A vem mesmo a calhar. LOL!!

